O testamento vital é um dos instrumentos mais importantes — e ainda pouco conhecidos — para quem deseja garantir que suas decisões sobre tratamentos médicos sejam respeitadas mesmo em momentos de incapacidade. Trata-se de uma escritura pública que formaliza a vontade da pessoa sobre cuidados de saúde em situações de terminalidade ou quando não puder mais se manifestar.

Diferente do que o nome sugere, o testamento vital não tem relação com a divisão de bens. É um documento voltado exclusivamente para decisões sobre a própria vida e o próprio corpo, que produz efeitos enquanto a pessoa ainda está viva, mas incapacitada de expressar sua vontade.

Neste guia completo, você vai entender o que é o testamento vital, qual sua base legal no Brasil, o que pode constar no documento, como lavrá-lo em cartório e quais seus efeitos jurídicos práticos.

O que é o testamento vital?

O testamento vital, tecnicamente chamado de Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV), é o documento por meio do qual uma pessoa maior e capaz declara antecipadamente quais tratamentos médicos deseja ou não receber caso venha a se encontrar em situação de terminalidade da vida ou de incapacidade para expressar sua vontade.

O objetivo é garantir a autonomia do paciente mesmo quando ele não puder mais comunicá-la — seja por coma, demência avançada, acidente grave ou doença degenerativa.

Testamento vital não é testamento patrimonial

É essencial distinguir os dois instrumentos, pois a confusão é frequente:

  • Testamento vital (DAV): trata de cuidados médicos e produz efeitos em vida, na fase de terminalidade ou incapacidade
  • Testamento patrimonial: trata da destinação de bens e produz efeitos apenas após a morte

Os dois documentos podem coexistir e, em muitos casos, fazem parte de um planejamento sucessório e patrimonial completo.

Base legal do testamento vital no Brasil

O Brasil ainda não possui uma lei específica sobre testamento vital. A matéria é regulada por normas infralegais, resoluções profissionais e reconhecimento jurisprudencial, o que não impede sua validade — apenas exige atenção redobrada na lavratura.

Resolução CFM nº 1.995/2012

Editada pelo Conselho Federal de Medicina, foi a primeira norma brasileira a tratar expressamente das diretivas antecipadas de vontade. Ela reconhece o direito do paciente de definir previamente os limites de seu tratamento e obriga o médico a respeitar essa manifestação.

Provimento CNJ nº 149/2023

Com a edição do Código Nacional de Normas da Corregedoria Nacional de Justiça, o Conselho Nacional de Justiça consolidou as regras para lavratura de escrituras públicas de DAV em cartórios de notas de todo o país, trazendo segurança jurídica e padronização ao procedimento.

Jurisprudência

Decisões de tribunais brasileiros têm reconhecido de forma crescente a validade das diretivas antecipadas, especialmente quando formalizadas por escritura pública. O Superior Tribunal de Justiça e tribunais estaduais vêm prestigiando a autonomia do paciente em situações de terminalidade.

O que pode constar no testamento vital

A DAV permite ao declarante estabelecer, de forma detalhada, suas preferências sobre tratamentos médicos. Entre as disposições mais comuns estão:

  • Recusa de procedimentos invasivos: entubação, traqueostomia, ventilação mecânica prolongada
  • Recusa de reanimação cardiopulmonar: em casos de parada em quadro terminal
  • Limitação de tratamentos fúteis: quimioterapia, diálise ou cirurgias sem perspectiva de recuperação
  • Manifestação sobre cuidados paliativos: priorizando qualidade de vida e controle da dor
  • Recusa ou autorização de transfusão de sangue
  • Posicionamento sobre doação de órgãos
  • Nomeação de procurador de saúde: pessoa de confiança que tomará decisões em nome do paciente

O que não pode constar

A autonomia garantida pela DAV tem limites importantes, e é fundamental conhecê-los:

  • Eutanásia: a prática que busca abreviar ativamente a vida do paciente é vedada no ordenamento jurídico brasileiro e não pode ser prevista no documento
  • Suicídio assistido: também vedado pela legislação brasileira
  • Disposições contrárias à lei ou à ética médica: não produzirão efeitos ainda que registradas

O que a DAV permite é a ortotanásia — a não adoção de medidas artificiais que apenas prolonguem o processo natural de morte em pacientes terminais. Essa prática é expressamente admitida pelo Código de Ética Médica.

Nomeação de procurador de saúde

Um dos aspectos mais relevantes do testamento vital é a possibilidade de nomear um procurador de saúde — pessoa de confiança que assumirá as decisões médicas quando o paciente não puder manifestá-las diretamente.

No 20º Cartório, a nomeação do procurador é lavrada no mesmo ato da DAV, o que simplifica o procedimento e reduz custos.

O que o procurador de saúde pode fazer:

  • Interpretar as diretivas estabelecidas diante de situações não previstas expressamente
  • Decidir sobre tratamentos em nome do paciente, respeitando sua vontade manifestada
  • Interagir com equipe médica, hospital e familiares
  • Representar o paciente em decisões que exijam manifestação imediata

Como escolher o procurador:

Deve ser pessoa que o declarante confie plenamente, que conheça seus valores e que esteja disposta a assumir a responsabilidade de decidir em momentos delicados. Muitas vezes é o cônjuge, um filho maior ou um amigo próximo. É recomendável — embora não obrigatório — conversar previamente com a pessoa escolhida.

Como fazer o testamento vital no cartório

A lavratura da escritura pública de DAV é um procedimento simples, mas exige atenção ao conteúdo. O Provimento CNJ 149/2023 estabelece o rito a ser observado pelos tabelionatos.

Documentos necessários:

  • Documento de identidade com foto (RG, CNH ou passaporte)
  • CPF
  • Documentos do procurador de saúde, se houver nomeação

Como é o procedimento:

  1. Consulta prévia: conversa com a equipe do cartório para entender o escopo do documento e esclarecer dúvidas
  2. Elaboração da minuta: redação das disposições de forma tecnicamente precisa, conforme a vontade do declarante
  3. Orientação médica: embora não obrigatória, é altamente recomendável que o declarante tenha conversado com médico de sua confiança sobre os termos das diretivas
  4. Assinatura da escritura: o declarante comparece ao cartório e assina a escritura pública perante o tabelião
  5. Arquivamento: o documento fica arquivado no cartório e pode ser consultado a qualquer momento por meio de certidão

Valor no 20º Cartório em 2026:

A escritura pública de Diretivas Antecipadas de Vontade custa R$ 615,30, conforme tabela de emolumentos do Estado de São Paulo. Quando a nomeação de procurador é feita no mesmo ato, não há cobrança adicional pelo mandato.

Em caso de necessidade de assinatura fora do cartório — como em domicílio ou hospital, quando o declarante não pode se deslocar —, o valor dos emolumentos é cobrado em dobro, conforme previsão da tabela oficial.

Efeitos jurídicos do testamento vital

Compreender o alcance real da DAV evita frustrações e expectativas equivocadas. O documento produz efeitos concretos, mas dentro de parâmetros bem definidos.

Quando a DAV começa a produzir efeitos

As diretivas só se tornam aplicáveis quando o paciente não puder mais manifestar sua vontade de forma consciente e autônoma, e desde que esteja em uma das situações previstas no próprio documento (terminalidade, coma irreversível, estado vegetativo, demência avançada, etc.).

Enquanto o paciente puder decidir por si mesmo, sua manifestação atual prevalece sobre o que foi estabelecido no testamento vital.

Eficácia perante equipe médica

Formalizada por escritura pública, a DAV deve ser respeitada pela equipe médica e pela instituição hospitalar, conforme a Resolução CFM 1.995/2012. Por isso, é fundamental que:

  • A família e o procurador de saúde conheçam a existência do documento
  • Uma cópia ou certidão seja anexada ao prontuário médico em caso de internação
  • O médico assistente seja informado sobre as disposições

Limites da eficácia

A DAV não é absoluta. Algumas situações em que sua aplicação pode ser discutida:

  • Quando há dúvida fundada sobre a atualidade das disposições
  • Quando os avanços médicos tornam obsoletas as previsões originais
  • Quando há conflito com normas éticas ou legais supervenientes
  • Quando não se verifica a situação clínica prevista no documento

Como revogar o testamento vital

O testamento vital é plenamente revogável a qualquer tempo, desde que o declarante esteja em condições de manifestar sua vontade de forma consciente.

Como revogar ou alterar:

  • Revogação total: lavratura de nova escritura pública revogando a anterior
  • Alteração parcial: nova escritura modificando cláusulas específicas
  • Substituição: nova DAV completa que substitui integralmente a anterior

O tabelião tem especial cuidado nesses atos, verificando se o declarante mantém sua capacidade de discernimento. Havendo dúvida, pode exigir avaliação médica ou recusar a lavratura.

Impugnação do testamento vital e conflitos familiares

A vontade do declarante expressa em DAV lavrada por escritura pública tem presunção de validade. No entanto, ela pode, em tese, ser questionada em situações excepcionais.

Hipóteses de impugnação:

  • Alegação de falta de capacidade do declarante no momento da lavratura
  • Vícios de vontade (coação, erro, fraude)
  • Previsões contrárias à lei ou à ética médica
  • Situação clínica que não se enquadra nas hipóteses previstas no documento

A escritura pública, por ser ato solene lavrado por tabelião, oferece forte proteção contra questionamentos, já que o tabelião atesta a capacidade e a livre manifestação de vontade do declarante no momento do ato.

Prevenção de conflitos

Para reduzir o risco de disputas familiares, recomenda-se:

  • Conversar previamente com familiares próximos sobre a decisão
  • Escolher procurador de saúde alinhado com os valores do declarante
  • Ser claro e específico nas disposições, evitando termos ambíguos
  • Revisar o documento periodicamente, especialmente após mudanças de saúde ou contexto familiar

Quem deve fazer um testamento vital?

A DAV é útil para qualquer pessoa maior e capaz que deseje garantir autonomia sobre cuidados médicos futuros. Alguns perfis em que o instrumento tem especial relevância:

Pessoas com diagnóstico de doença degenerativa

Pacientes com Alzheimer inicial, Parkinson, esclerose múltipla, ELA e outras doenças que podem progressivamente comprometer a capacidade de manifestação de vontade encontram na DAV uma forma de preservar sua autonomia antes que a doença avance.

Idosos

Mesmo sem diagnóstico específico, o avanço da idade aumenta a probabilidade de situações em que a pessoa não possa mais decidir por si. A DAV antecipa essas decisões enquanto há plena capacidade.

Pessoas com convicções específicas sobre tratamentos

Quem tem posição formada sobre determinados procedimentos — por motivos religiosos, filosóficos ou pessoais — encontra na DAV o instrumento adequado para garantir que essas convicções sejam respeitadas.

Quem deseja poupar a família de decisões difíceis

Muitos declarantes buscam a DAV justamente para não transferir aos familiares o peso de decidir sobre sua vida em momentos de extrema fragilidade emocional.

O papel do tabelião na lavratura da DAV

O tabelião é o profissional responsável por garantir a validade jurídica da escritura pública de DAV. Sua atuação vai além da simples formalização:

  • Verificação da capacidade: confirma que o declarante está em pleno uso de suas faculdades mentais
  • Orientação técnica: esclarece os efeitos jurídicos de cada disposição
  • Redação precisa: traduz a vontade do declarante em linguagem tecnicamente adequada
  • Fé pública: atesta a autenticidade do ato e a livre manifestação de vontade
  • Arquivamento seguro: mantém o documento arquivado e disponível para certidões futuras
  • Sigilo: preserva a confidencialidade do conteúdo

Perguntas frequentes sobre testamento vital

A DAV precisa ser refeita periodicamente?

Não existe prazo de validade legal. No entanto, é recomendável revisar o documento a cada três a cinco anos, ou sempre que houver mudança relevante no contexto pessoal, familiar ou médico do declarante.

É necessário advogado para lavrar a DAV?

Não é obrigatório. O tabelião é o profissional legalmente habilitado para orientar e lavrar a escritura. A consulta a advogado ou médico é uma escolha do declarante e pode ser útil em casos de maior complexidade.

A DAV pode ser feita online?

A lavratura tradicional é feita presencialmente. Em determinadas situações, a Central Notarial de Serviços Eletrônicos Compartilhados (Censec) e o sistema e-Notariado permitem atos à distância, desde que observados os requisitos de segurança e identificação.

Posso fazer DAV sem indicar procurador de saúde?

Sim. A nomeação de procurador é facultativa. A DAV produz efeitos apenas com as diretivas estabelecidas, embora a existência de um procurador tende a dar maior fluidez à aplicação do documento.

E se eu mudar de ideia depois?

Basta comparecer ao cartório e lavrar nova escritura revogando ou alterando a anterior. O direito à revogação é amplo e não exige justificativa.

Conclusão

O testamento vital é um instrumento de autonomia e cuidado — consigo mesmo e com a família. Ele permite que decisões profundamente pessoais sobre tratamentos médicos sejam tomadas com calma, em momento de plena lucidez, e respeitadas mesmo quando a pessoa não puder mais comunicá-las.

Diferente do que muitos imaginam, não é um documento apenas para quem está doente ou em idade avançada. É um instrumento de planejamento pessoal que reflete valores, convicções e o desejo de preservar dignidade em qualquer circunstância.

A lavratura por escritura pública em cartório de notas oferece a segurança jurídica necessária para que a DAV produza efeitos concretos, sendo respeitada por equipes médicas, instituições de saúde e, se necessário, pelo Poder Judiciário.

Deseja lavrar seu testamento vital? O 20º Cartório de Notas do Itaim Bibi oferece orientação especializada para lavratura de Diretivas Antecipadas de Vontade, com atendimento discreto e equipe preparada para esclarecer todas as suas dúvidas.

Entre em contato conosco para agendar uma consulta e formalizar suas decisões sobre cuidados de saúde com a segurança jurídica da escritura pública.